Cuidar de nossa saúde mental é um gesto de humildade

Simers: cuidar da nossa saúde mental é um gesto de humildade

A disseminação e agravamento do sofrimento mental na sociedade é algo detectado por todos os médicos na linha de frente, independentemente de sua especialidade.


Desde os ginecologistas, passando pelos cirurgiões, e chegando até aos pediatras, cada vez atendemos mais pacientes que têm como causa primária de seu conjunto de sintomas o sofrimento psíquico.

Em meio a nossa rotina esgotante, os casos crescentes de suicídio entre médicos assustam, como consequência mais trágica dos agravos em saúde mental. Mas o choque costuma ser sucedido por incredulidade e falta de compreensão, quase nunca reflexão.

Médico estressado no plantão

70% Maior

Os poucos dados que temos no país sobre o tema apontam que a taxa de suicídio entre médicos é cerca de 70% maior do que no restante da sociedade.


Que 32,1% dos médicos residentes brasileiros apresentam exaustão emocional e que 30,6% dos estudantes de Medicina no Brasil manifestam sintomas compatíveis com depressão, evidenciando um cenário disfuncional que existe desde as etapas de formação e se consolida na vida profissional.

Parte dessa escassez de dados se deve justamente à dificuldade do médico em se reconhecer como doente, perceber que precisa de ajuda e procurar por ela.

Nosso modelo de formação nos educa a sermos inabaláveis, resistentes e imunes ao próprio sofrimento, físico ou mental. Os estressores ambientais são constantes, desde a faculdade.

Assédio moral é encarado como um processo natural de crescimento, parte de um modelo de desenvolvimento que nos tornará mais fortes e capazes. Precárias condições de infraestrutura, tolerância com atrasos salariais e ingerência política em nosso exercício profissional são colocadas na conta do sacrifício pessoal, em nome do “sacerdócio” pelo qual não podemos ser egoístas a ponto de pensar em nosso próprio bem-estar. 

Todo esse conjunto de fatos forma um caldo de cultura muito favorável ao desenvolvimento de sofrimento psíquico e transtornos psiquiátricos.

Os pacientes, em sua grande maioria, não conhecem o alto grau de impacto emocional a que estamos expostos, diariamente, em uma profissão já naturalmente delicada e exigente, e que está sendo gradualmente emparedada entre desvalorização, judicialização e apelo midiático. 

Nesse sentido, é nosso papel falarmos sobre. Mostrar aos médicos que somos sim merecedores de cuidados, que devemos identificar quando precisamos de ajuda, ou quando nossos colegas precisam de ajuda.

Nossos pacientes precisam que seus médicos tenham uma boa saúde mental. Nós precisamos ter uma boa saúde mental, cuidar de nós mesmos para cuidarmos dos outros.

Esse gesto de humildade pode ser o caminho para uma vida profissional e pessoal mais gratificantes.

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