Radar Simers entrevista: Mauro Ribeiro, novo presidente do CFM

Radar Simers entrevista: Mauro Ribeiro, novo presidente do CFM 1

Paulista radicado em Campo Grande (MS), Mauro Ribeiro assumiu a presidência do Conselho Federal de Medicina (CFM) em 1º de outubro. Entre as principais bandeiras de sua gestão está a união das entidades médicas e de todos os conselheiros (efetivos e suplentes) para o enfrentamento dos desafios impostos. Além disso, quer atuar contra a abertura indiscriminada de escolas médicas, defender o Revalida e garantir exigência de exame de proficiência para os egressos dos cursos de Medicina.

Radar Simers – De que maneira o senhor pretende estreitar laços com as entidades médicas durante sua gestão?

Mauro Ribeiro – É intenção dessa gestão atuar junto da Associação Médica Brasileira (AMB), da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), da Federação dos Médicos do Brasil (FMB), que são nossas grandes parceiras. Também queremos estreitar laços com as sociedades de especialidade e com as academias de medicina, assim como com os grupos de representação dos estudantes. Com algumas dessas instituições, muitas vezes esse relacionamento tem sido prejudicado por razões políticas, mas a crise na medicina brasileira é tão grande, tão grave, que neste momento temos de nos despir de nossas vaidades, sentar e fazermos realmente alguma coisa que faça a diferença. Por isso, queremos promover a reflexão, o debate e as ações em torno de interesses comuns, que tragam benefícios para nossa profissão, para os médicos e para os pacientes e seus familiares.

Radar Simers – No discurso de posse, o senhor falou em transformar a Comissão de Assuntos Políticos (CAP) do CFM. Quais mudanças serão feitas?

Mauro Ribeiro – Há muito a fazer em diferentes áreas. Contudo, de forma resumida, é possível destacar alguns pontos na gestão que se inicia, como os seguintes. A articulação política ocupará espaço de destaque na agenda do Conselho. É nossa intenção reformularmos a Comissão de Assuntos Políticos do CFM, que já é extremamente atuante, com a incorporação de novos membros e realização de programações semanais no Congresso Nacional, visitando parlamentares e acompanhando as audiências públicas que sejam de interesse da medicina brasileira. Vamos deixar de ter uma ação reativa e vamos passar realmente a seguir aquilo que os nossos deputados nos falam, que é estar um passo à frente em relação às proposições que tramitam no Congresso Nacional.

Radar Simers – A questão das Escolas Médicas é uma das bandeiras de sua gestão. Como será esta atuação? 

Mauro Ribeiro – O CFM tem buscado apoio à manutenção da moratória que suspendeu a criação de escolas médicas por cinco anos junto a diferentes setores. Temos conversado com parlamentares e ministros, apresentando argumentos fortes. Inclusive, o presidente Jair Bolsonaro está ciente de nossas preocupações, tendo sinalizado a realização de uma reunião com representantes dos Ministérios da Saúde e da Educação para discutir o assunto. Essa moratória resultou de uma longa negociação com o então presidente Michel Temer, que apoiou a medida por sugestão de Mendonça Filho, seu ministro da Educação. Atualmente, percebe-se a inquietação de alguns setores da Esplanada, que trabalham para mudar a regra e permitir o retorno de um verdadeiro balcão de negócios em relação à abertura de escolas médicas no Brasil. Hoje nós já temos 337 escolas. Não existe precedente no mundo de que num espaço de menos de 10 anos tenham sido abertas mais de 140 escolas médicas. Estamos no limite para que essa aberração volte a assombrar a medicina brasileira e a população brasileira. Esse é um problema que nós e as entidades médicas temos de resolver juntos.

“O CFM tem buscado apoio à manutenção da moratória que suspendeu a criação de escolas médicas por cinco anos junto a diferentes setores.”

mauro ribeiro, presidente do cfm

Radar Simers – Uma das novidades é a implementação do sistema de acreditação de escolas médicas (Saeme). Como ele funcionará?

Mauro Ribeiro – Também atuaremos pela qualificação do ensino médico no Brasil, com a implementação do Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (Saeme), criado pelo CFM, uma iniciativa que já acreditou mais de 30 instituições de ensino, com base em critérios de excelência. Nesse lado do mundo, a única instituição que tem registro na World Federation for Medical Education somos nós. E isso é extremamente importante, pois a partir de 2023 médicos que decidirem emigrar para os EUA, obrigatoriamente terão de ser graduados no país de origem por uma escola acreditada e com registro na WFME. E só nós temos isso aqui. É um legado que nós deixamos.

Radar Simers – Um dos pilares das competências legais dos conselhos de medicina é a fiscalização. Como o senhor pretende atuar nessa área?

Mauro Ribeiro – Na gestão que se inicia, também daremos foco na fiscalização, que uma das competências legais dos conselhos de medicina. Vamos aprimorar esse processo e dialogar com os conselhos regionais para que ele se amplie. Precisamos juntar informações para podermos atuar em prol de melhorias nas políticas públicas dentro do Ministério da Saúde. Nos últimos cinco anos, o sistema conselhal responde por mais de 40 mil ações de fiscalização, sendo que cerca de 25 mil delas geraram visitas in loco. Além disso, temos implementado uma estratégia de realização de levantamentos periódicos, nos quais analisamos a implementação de algumas políticas públicas de saúde. É o CFM que tem ido às autoridades e à imprensa

Radar Simers – Como fica a luta pelo Revalida na sua gestão?

Mauro Ribeiro – A defesa do Revalida, como previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é uma bandeira do Conselho Federal de Medicina. Continuaremos atuando para que esse exame seja aplicado, com exigência de aprovação, para todos aqueles que se formaram em medicina em outros países e têm interesse em atuar no País. Além disso, entendemos ser fundamental que o Revalida continue a ser oferecido apenas pelas universidades públicas (federais, estaduais ou municipais). Hoje, lutamos no Congresso para derrubar as emendas que foram feitas à Medida Provisória 890/2019 que distorcem esses pressupostos. Temos conseguido o apoio de vários parlamentares e vemos a classe médica atenta e mobilizada. Essa é uma luta da medicina, dos médicos e de toda a sociedade brasileira.

Radar Simers entrevista: Mauro Ribeiro, novo presidente do CFM 2

Radar Simers – Como o senhor vê o futuro da Medicina no Brasil?

Mauro Ribeiro – Temos que pensar de forma positiva e acreditar que nossas lutas lograrão êxito. O cenário atual é conturbado, com dificuldades como as tentativas de invasão de competências por outras categorias profissionais, as pressões políticas por mudanças em regras de interesse para os médicos e a sociedade, e a ausência de políticas públicas que valorizem o médico, como peça-chave no processo assistencial. Mas são alguns dos problemas. Contudo, confio no poder de aglutinação de nossa categoria, de nossas entidades. Com transparência, estratégia e engajamento, creio que poderemos avançar nessa luta em favor de uma saúde melhor para todos e do fortalecimento da medicina no País.

Deixe o seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Agora você está offline

%d blogueiros gostam disto: