Geração workaholic: em busca do equilíbrio entre cuidar de si e cuidar dos outros

Ao ouvir o despertador do celular tocar às 6h em ponto, a médica Adriele Andres acorda, levanta da cama, escova os dentes e se veste rapidamente antes de pegar o carro rumo à Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

O trajeto de 40 minutos tem como destino final a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Boqueirão, no Guajuviras, um dos maiores bairros do município. Ao chegar na UPA, Adriele está pronta para iniciar um plantão de 12 horas, das 7h às 19h, onde atenderá alguns dos 350 a 400 pacientes que passam pelo local diariamente.

Esse poderia ser apenas o relato de mais uma rotina de trabalho de uma médica.

Porém, o dia de Adriele não termina por aqui.

Depois do plantão na UPA em Canoas, a médica de 37 anos pega, novamente, a estrada. Desta vez, o destino é a UPA 24 horas de Gravataí, também na Região Metropolitana – a primeira (e única) unidade municipal de atendimento de emergência que atende a população do município.

Lá, Adriele dá início a mais um plantão de 12 horas, do qual só irá se liberar na manhã do dia seguinte. “A minha rotina é um tanto complexa. Eu trabalho todos os dias por muitas horas. Apesar de me alimentar de forma muito saudável, eu faço cerca de duas refeições ao dia. É um caos, mas eu lido bem”.

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“A minha rotina é um tanto complexa. Eu trabalho todos os dias por muitas horas. Apesar de me alimentar de forma muito saudável, eu faço cerca de duas refeições ao dia. É um caos, mas eu lido bem”.

Adriele Andres

Uma alimentação atribulada não é exclusividade de Adriele. Paloma Salomone Viaro, médica e nutróloga em formação, também sofria desse mal durante os anos em que cursou a faculdade e o internato de Medicina.

“Eu nunca tomava café da manhã. Geralmente acordava e ia correndo para o hospital e só ia comer algum lanche se pudesse fazer algum intervalo”, explicou a médica.

A solução que Paloma encontrou para burlar a fome foi carregar sempre algum lanchinho rápido na bolsa. Mesmo em casa, à noite, a alimentação também não era lá muito saudável: “eu tentava usar o meu tempo livre para estudar e dar conta dos conteúdos da faculdade, então acabava sempre caindo na armadilha de pedir teleentrega ou pizza congelada”. 

Ainda que a rotina atribulada e estressante que Adriele e Paloma vivenciam não seja uma exclusividade feminina, esse pode ser apenas um dos sintomas que levam mulheres médicas a falecer antes do que médicos do sexo masculino, conforme elucida uma pesquisa feita pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

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Médicas morrem 10 anos antes que homens

Um estudo publicado pelo Cremesp, em 2012, revelou que mulheres médicas do Estado de São Paulo vieram a falecer ao menos uma década antes do que médicos homens.

Baseado em dados coletados através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde referentes ao período entre os anos de 2000 e 2009, a pesquisa analisou os dados de 2.927 médicos falecidos no Estado de São Paulo.

Os resultados sugerem que mulheres médicas no período estudado morreram, em média, 10 anos antes do que os homens médicos. Entre as mulheres, a idade média de morte foi de 59,2 anos, enquanto que para os homens a média foi de 69,1 anos.

Mais dados da pesquisa:

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Declarações de óbito com a sinalização da profissão “médico”

  • Apenas dados do Estado de São Paulo;
  • Entre os anos de 2000 e 2009;
  • 2.540 homens – (86,78%);
  • 387 mulheres – (13,22%);
  • Idades: entre 23 a 104 anos.

Ainda que o estudo tenha sido publicado há quase uma década, as informações obtidas ainda se mantêm relevantes, visto que os números representam um grave problema dentre a categoria – especialmente pela falta de pesquisas e ações voltadas à gestão da saúde dos médicos.

No entanto, assim como todas as outras coisas, cultivar uma vida saudável é uma questão de hábito – um hábito importante e que pode vir a evitar um fim prematuro.

Para Paloma, o momento de virada no seu estilo de vida foi quando ela descobriu que estava grávida de gêmeas. “No momento em que eu engravidei, eu mudei esse pensamento totalmente. Eu comecei a ver que eu tenho que me alimentar melhor, tenho que ter uma saúde melhor. Não adianta eu cuidar só dos meus pacientes.”

“A gente fica tão focado nos pacientes, no cumprimento da carga horária, em tirar boas notas ao longo da faculdade, que acaba esquecendo da própria saúde. Mas tudo se dá um jeitinho e a gente dá um jeito de conseguir tempo, é só questão de organização.”

Paloma Salomone Viaro

Já para a pediatra Betusa Kramer, o segredo para evitar o caos e a exaustão está na busca pela harmonia. “Eu encontrei o equilíbrio estando presente no crescimento das minhas filhas, ao cultivar um casamento há 27 anos, fazendo natação”, explica a médica, que pratica a Medicina há mais de duas décadas e concilia cinco empregos simultâneos.

Assim, talvez uma forma de promover a longevidade – e contrariar as estatísticas – seja quebrar com a mentalidade de que ser mulher e trabalhar com Medicina precisa ser um motivo de estresse, de saúde debilitada ou de uma vida mais curta do que os demais colegas.

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