Radar Simers entrevista: Tatiana Della Giustina, conselheira do CFM

Representante dos gaúchos junto ao Conselho Federal de Medicina (CFM), a otorrinolaringologista Tatiana Della Giustina pretende usar de toda sua expertise profissional para defender as causas da categoria em âmbito nacional.

Com a bandeira do resgate para a dignidade médica, propõe a revisão de pontos jurídicos que prejudicam a atuação dos profissionais da área. “O excesso de legislação e as mudanças que ocorreram a partir da abertura política engessaram a atividade médica de uma maneira tal, a responsabilização do médico é tão grande, que cada vez temos menos autonomia. Observamos, com isso, limitações da atividade médica e, principalmente, desprestígio para a nossa categoria”, destaca a conselheira federal do CFM.

Confira trechos da entrevista que Tatiana concedeu ao Simers:

Radar Simers – De que forma a senhora acha que a sua experiência profissional poderá ajudá-la na condução da representatividade dos médicos gaúchos?

Tatiana Della Giustina – Eu me formei em 1983 e sempre tive consultório na área de otorrinolaringologia. Mas, na década de 1990, eu ingressei como perita médica no TJ/RS. Este concurso foi feito porque o próprio tribunal chegou à conclusão de que, pós Constituição de 1988 e após a implementação do Código de Defesa do Consumidor, haveria muitos pleitos sobre a área médica. Em 1994, uma sequência de legislações fez com que a Saúde fosse muito demandada: direito à saúde, processos por erro médico, acidentes de trabalho, entre outros. Isso me deu uma expertise muito grande, porque passei a atuar na perícia médica. E a gente foi vendo que os processos contra médicos aumentavam significativamente.

Em 1994, uma sequência de legislações fez com que a Saúde fosse muito demandada: direito à saúde, processos por erro médico, acidentes de trabalho, entre outros.

Radar Simers – Como médica, estes temas sempre lhe interessaram?

Tatiana – Sim, tanto que acabei fazendo uma pós-graduação em Medicina do Trabalho. Depois de um tempo, eu fui coordenadora da Unidade Médico-Pericial do TJ/RS, então passei a ter uma visão mais panorâmica da situação, porque eu distribuía os processos como coordenadora. E, para fazer isso, tinha que ler cada um deles. Então eu fui vendo as razões pelas quais aquele processo existia. Depois, fiz um mestrado em Distúrbios da Comunicação Humana, em Santa Maria, com ênfase em audiologia ocupacional. E, depois que eu me aposentei, resolvi unir tudo que eu já sabia e fazer um doutorado em Saúde Pública, em Buenos Aires. E usei este universo de pesquisa e tracei um perfil de todos os casos, avaliei o por quê acontecia a judicialização da Saúde e da Medicina, passando pelos processos éticos contra os colegas. Ao final, eu resolvi fazer um livro, que era o condensado da tese: “Por que a Saúde e a Medicina estão na Justiça?”

Radar Simers – Então é a partir deste conhecimento que a senhora pretende representar os médicos gaúcho no CFM? 

Tatiana – Sim, esse livro foi uma introdução da função que vou desempenhar dentro do Conselho Federal da Medicina. Ao procurar entender o por quê estas coisas acontecem, a gente chegou à conclusão de que o excesso de legislação, as mudanças que ocorreram a partir da abertura política, na verdade, engessaram a atividade médica de uma maneira tal, a responsabilização do médico é tão grande, que cada vez temos menos autonomia. Observamos, com isso, limitações da atividade médica e, principalmente, um desprestígio do médico. Esta foi uma das bandeiras da nossa campanha, pois queremos mudar este cenário.

Quando estava fazendo o doutorado, me dei conta de que sem poder nada se muda, não adianta saber como se deve fazer.

Radar Simers – Quais são os seus principais pleitos? 

Tatiana – Vamos valorizar o Ato Médico, as prerrogativas médicas. Eu acompanhei tudo isso, eu vivi, então eu sou testemunha de toda esta história de desvalorização do médico. Eu tenho certeza de que posso mudar isso, junto com outros colegas e com muito trabalho. Já tenho feito isso, pois as redes sociais nos propiciam uma proximidade com colegas em localizações distantes, mas que passam pelo mesmo que nós. Por exemplo, aquela história dos médicos cubanos que ficaram, tem sempre um lobby de algum político querendo se aproveitar disso. A lei do Ato Médico ficou trancada por anos. A própria lei do Revalida também. Só que a gente tem que ter poder para mudar isso.

Radar Simers – Na sua opinião, o Programa Médicos Pelo Brasil é melhor do que o anterior, o Mais Médicos? 

Tatiana – A questão do Mais Médicos, discordamos profundamente da atuação do CFM na época. Deixou a gente em situação de nocaute. Nós beijamos a lona e não nos levantamos. A gente sabe que o programa foi criado para mandar dinheiro para Cuba, era para promover uma carreira de Estado para os médicos, e não ficou bem assim. Mas eu vejo o Médicos Pelo Brasil como um programa “menos pior” do que o anterior. Recentemente, foi avaliada uma Medida Provisória para que o Revalida seja feito em faculdades privadas, sem prazo limitador. Isso desvirtuou o programa. Nós queremos que os cubanos que estão aí façam o Revalida como qualquer outro profissional.

Dra Tatiana Della Giustina

Dra Tatiana Della Giustina

“Por mais que haja boa intenção com esta MP para conceder mais disponibilidade, isto está sujeito a esta questões de corrupção que estamos acostumados a ver.”


Radar Simers – Como a senhora vê a questão do Ato Médico? 

Tatiana – Existem várias áreas que estão invadindo a Medicina em todas as especialidades. No caso da otorrinolarongologia, a gente vem sofrendo com a odontologia, que está ampliando a sua atuação no mercado. Mas o dentista não tem habilitação para isso. É como se o otorrino fizesse uma obturação dentária porque o dente está na boca. A odontologia, assim como a Medicina, tem currículos diferentes em diferentes países. Em alguns países, exige até formação médica. Aqui não é assim. A gente tem que ter a noção do que fazer, senão podemos acabar sendo responsabilizados por um erro grave.

Radar Simers – Há mais alguma questão que a sua gestão pretende tratar? 

Tatiana – Sim, queremos revisar a Resolução CFM1974 de 2011, de publicidade médica. De 2011 para cá, muita coisa mudou do ponto de vista de mídia social, então toda norma precisa ser revisitada. Especialmente esta, porque esta faz com que o profissional médico fique em uma franca desvantagem em relação aos demais profissionais. Os médicos ficam presos na parte ética, enquanto os mão-médicos podem divulgar os seus trabalhos.

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