O Médico

Covid-19: os desafios e as lições da pandemia para a categoria médica

Por Marjorie Schmidt

Era março de 2020. Os casos de novo coronavírus se espalhavam pelo mundo e começavam a ser confirmados também no Brasil. As causas e as consequências da (mais tarde batizada) Covid-19 ainda eram pouco conhecidas, mas as medidas para tentar conter a disseminação da doença já começavam a ser tomadas. Comércio fechado, isolamento social, home office, etc. Foram diversas as mudanças no dia a dia das pessoas. 

De um lado, a sociedade tentava compreender do que se tratava o tal coronavírus. De outro, médicos se desdobravam para minimizar os impactos e salvar a vida das pessoas contaminadas.

Além das incertezas com relação à doença, outros desafios começaram a surgir para os profissionais da saúde, como a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), a politização da pandemia, o esgotamento físico e mental, entre outros. Nesta reportagem da Revista Radar, trazemos o relato de três diretores do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) e as formas como cada um deles enfrentou a pandemia. 

Médico emergencista e diretor da Região Metropolitana do Simers, Jefferson Boeira diz ter percebido que problemas já conhecidos da saúde pública se tornaram mais evidentes e de difícil adaptação, como a falta de leitos e de insumos.

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“A pressão sobre os médicos aumentou. Alguns profissionais ficaram doentes, outros foram afastados das atividades por fazerem parte do grupo de risco. Houve sobrecarga de trabalho àqueles que permaneceram na linha de frente. O cenário é de desafios”.

Jefferson Boeira

Com uma filha pequena e a esposa gestante, Boeira precisou se acostumar à nova rotina de seguir à risca os protocolos de segurança recomendados a fim de minimizar os riscos de contaminação da família. Ao chegar em casa, o primeiro passo é tomar banho e separar as roupas para que sejam lavadas separadas das demais. Além disso, o calçado utilizado no ambiente de trabalho fica no porta-malas do carro dentro de uma embalagem plástica. 

Pediatra e coordenadora do Núcleo de Combate ao Exercício Ilegal da Medicina do Simers, Anice Metzdorf fez algumas adaptações em seu consultório para garantir a segurança dos pacientes. Os horários de atendimento foram espaçados para evitar aglomerações e os já frequentes cuidados com a limpeza e ventilação das salas de espera e de consulta foram redobrados. 

A preocupação com a saúde mental das pessoas também cresceu. O medo de ser contaminado, o distanciamento social, a preocupação com a saúde de amigos e familiares e as incertezas sobre o cenário econômico. Foram diversos os fatores que contribuíram para o aumento do estresse e da angústia entre a população. Esgotados pela rotina intensa de trabalho no combate à pandemia, os médicos também precisaram lidar com a pressão psicológica.

Membro do Núcleo de Psiquiatria do Simers, Rogério Cardoso afirma ter percebido aumento nos relatos sobre ansiedade entre os colegas devido às limitações impostas à vida e ao trabalho: “Tínhamos um ‘inimigo’ invisível e onipresente! O adoecimento de pacientes e colegas, alguns necessitando de cuidados hospitalares e com quadros graves, eventualmente fatais, tomou o imaginário de todos: alguns sofrendo mais, outros conseguindo adaptar-se melhor. Tristeza e insatisfações tornaram-se comuns, assim como a ansiedade e, episodicamente, quadros depressivos”.

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“Vimos muitos médicos aflitos com a necessidade de trabalhar no que convencionamos chamar ‘linha de frente’: a necessidade de fazermos exames frequentemente e temermos sermos contaminados; assim, sintomas que em outras épocas seriam minimizados, agora, com o risco ‘à solta’ passaram a gerar temor”.

Rogério Cardoso.

A opinião dos três diretores é unânime com relação ao novo olhar que a pandemia gerou sobre a medicina e a ciência. Para Anice Metzdorf, apesar das dúvidas e da insegurança do início, a sociedade foi se unindo e encontrando soluções gradativamente. “Acredito que a medicina passou a ser novamente vista em sua verdadeira essência: o cuidado com a vida. Os médicos, assim como todos os outros profissionais que compõem as equipes de atendimento de pacientes Covid, têm sido incansáveis, e a ciência mostrou ser o único caminho para encontrarmos uma solução para a pandemia”, comenta.

O diretor Jefferson Boeira espera que a valorização da sociedade sobre a medicina se mantenha e que não seja algo simbólico e passageiro: “Espero também que os gestores reflitam sobre melhores condições de trabalho. Ainda são bastante comuns as formas precárias de contratação de médicos, contratos verbais, ausência de garantias, atraso nas remunerações. É preciso estar preparado para lutar contra isso”. 

Cardoso concorda com os apontamentos de Boeira com relação às condições precárias de trabalho enfrentadas por muitos profissionais, principalmente no que diz respeito às remunerações. Um dos principais desafios, segundo ele, é a politização da pandemia.  “A importância da medicina e das ciências tornou-se evidente. Mas a politização de muitas das questões do dia a dia, para as quais as ciências não têm respostas prontas, imediatas e nem simples, possibilitaram que pessoas com capacidade de convencimento tenham produzido mais confusões que esclarecimentos. Por um lado, os profissionais da saúde passaram a ser mais reconhecidos e até aplaudidos; de outra mão, passaram também a ser mais exigidos e questionados, além de continuarem a ser insuficientemente remunerados por gestores, empresários da saúde e governos em geral”, aponta. 

Passados quatorze meses dos primeiros registros de coronavírus no Brasil, o desejo dos diretores é de que a sociedade tenha podido tirar alguma lição desse período:

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 “A lição um tanto cruel é de que somos extremamente vulneráveis. Um vírus tem o poder de varrer o mundo e nós não estávamos conscientes o suficiente disso, acho que agora estamos. O que parecia ser tema de filme de ficção se mostrou real e factível”.

Anice Metzdorf

Para Cardoso, “uma parte da sociedade compreendeu que uma pandemia atinge a todos indistintamente e, portanto, o cuidado de cada um repercute nos cuidados de todos. Mas temos visto que outra parte desta mesma sociedade não só não tem cuidados como sequer considera os riscos dos demais. Causaram-nos consolo e emoção as inúmeras atitudes de solidariedade que assistimos. Podemos supor, com razoável chance de acertarmos, que muitos outros atos de solidariedade ocorreram – e que sequer tomamos conhecimento – dentro dos hospitais, nos lugares de atendimento à saúde, nas ruas, domicílios, comércio, cidades e asilos. Portanto, tenho a esperança de que essas vivências repercutam positivamente em nossas vidas. Mas precisaremos de mais tempo para concluirmos quais lições foram positivas – para repetirmos – e quais não foram – para as evitarmos”. 

Já Boeira, torce pelo “fortalecimento da consciência social de que a saúde é um investimento e não um gasto. É fundamental que os responsáveis pela aplicação dos recursos financeiros compreendam isso. Afinal de contas, sem saúde não se faz nada. Não se vive…”, conclui.

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